Artigo publicado a 3 de Junho de 2014 no semanário O Diabo
Apesar de ser já sexagenário, o furtivo grupo Bilderberg mantém a sua forte influência. A comprová-lo estão os principais candidatos à liderança do Partido Socialista e à presidência da República: todos eles são membros desta poderosa sociedade.

Decorreu no passado fim-de-semana mais uma reunião Bilderberg, assinalando o 60º aniversário destes encontros – iniciados em Maio de 1954 na Holanda. Desta vez, Francisco Pinto Balsemão (membro da direcção do Bilderberg desde os anos 80) convidou o ministro da Saúde Paulo Macedo e a deputada socialista Inês de Medeiros, que passaram três dias com líderes do Fundo Monetário Internacional, Goldman Sachs, NATO, MI6, NSA, Google, Facebook, Microsoft, Shell, BP e muitos outros poderosos empresários, banqueiros e políticos do mundo ocidental. Este ano marcou também o regresso da realeza, com a Rainha Sofia de Espanha e a Princesa Beatriz dos Países Baixos, filha de um dos fundadores do Bilderberg.
Entre os vários tópicos oficialmente discutidos na reunião deste ano esteve a crise na Ucrânia, a partilha de informações entre agências de serviços secretos e um muito curioso, denominado “Será que a privacidade existe?” – uma pergunta irónica numa conferência onde participam agências como a NSA, que se sabe estar determinada a transformar a privacidade do cidadão comum em algo do passado. Privacidade e secretismo são temas caros ao Bilderberg, que manteve durante décadas a sua existência na sombra, com o apoio dos políticos e dos principais meios de comunicação social. A reunião deste ano foi realizada em Copenhaga, num hotel rodeado de atiradores snipers e barricadas de cimento, onde os vidros foram tapados para impedir quaisquer olhares do exterior. Dias antes de iniciar já três jornalistas independentes tinham sido presos, ao tentarem questionar um dos organizadores do encontro.

Outro assunto certamente discutido terá sido a ascensão dos movimentos eurocépticos nas eleições europeias, descrita como um autêntico “terramoto” político, que fez seguramente tremer o poder de Bilderberg. Em 2003, uma equipa de investigação da BBC divulgou documentos secretos da reunião de 1955, revelando que a União Europeia e a moeda única são uma criação do Bilderberg – um facto confirmado em 2009 por Étienne Davignon (na foto), que foi presidente da direcção do Bilderberg e presidente da Comissão Europeia.
Quais os efeitos reais na política nacional da participação dos nossos políticos nos encontros do grupo Bilderberg? Pode-se dizer que estão bem visíveis, apesar de haver quem insista em não os querer ver.

Quer o próximo líder do PS seja António José Seguro ou António Costa, já há um vencedor: Pinto Balsemão, militante número um do PSD e dono do grupo Impresa, proprietário, entre outros, do semanário Expresso e da televisão SIC. A razão é simples: tanto Seguro como Costa já participaram nos encontros do grupo dos ditos “senhores do mundo”. O actual líder dos socialistas esteve na reunião do ano passado e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi convidado em 2008.
O fundador do PSD é membro permanente do grupo Bilderberg desde 1988, após ter participado pela primeira vez, como convidado, na reunião de 1981, onde esteve na qualidade de primeiro-ministro, cargo que assumiu na sequência do atentado de Camarate. Desde que, em 1988, começou a poder convidar duas personalidades com importância nacional presente e futura, Balsemão acertou em todos os futuros primeiros-ministros, excepto o actual, Pedro Passos Coelho que, a bem da verdade, Balsemão confirmou publicamente que o chegou a convidar, mas não aceitou.

António Guterres foi o primeiro a dar razão a Balsemão. Era então líder do grupo parlamentar do PS quando foi convidado para a reunião de 1990, nos EUA, e chegou a primeiro-ministro em 1995, tendo derrotado o então sucessor de Cavaco Silva no PSD, Fernando Nogueira – que nunca esteve num encontro do grupo dos poderosos. Depois, em 2002, Guterres foi sucedido por Durão Barroso, que tinha estado no encontro Bilderberg de 1994, na Finlândia, quando ainda desempenhava o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. No ano seguinte à eleição de Barroso, o militante número um do PSD voltou a convidá-lo para o encontro que, em 2003, teve lugar em Versalhes, nos arredores de Paris. Juntamente com Barroso foi o sucessor de Guterres no PS, Ferro Rodrigues. Isto aconteceu um ano antes do então primeiro-ministro ter trocado a liderança do governo pela presidência da Comissão Europeia. Em 2004, pouco antes da saída de Barroso, Balsemão voltou a apostar em dois futuros primeiros-ministros, quando levou Santana Lopes e José Sócrates. Contudo, quando se tratou de escolher aquele que, dentro do PSD, iria suceder a Sócrates, Balsemão falhou nas apostas seguintes. Levou Aguiar Branco em 2006, Rui Rio em 2008, Manuela Ferreira Leite em 2009 e Paulo Rangel em 2010. Ferreira Leite foi líder do PSD, mas derrotada por Sócrates nas eleições de 2009. Aguiar Branco e Rangel nunca conseguiram impor-se politicamente dentro do PSD e foram derrotados por Pedro Passos Coelho na corrida à liderança. Rui Rio, no entanto, continua na “reserva”. Já Paulo Portas, líder do CDS, esteve na reunião do ano passado com Seguro, pelo que no futuro, com uma coligação com PSD ou PS, o CDS estará sempre “seguro”.
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