O estranho caso Banif

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Publicado a 5 de Janeiro de 2016 no semanário O Diabo (Foto de Nuno Botelho)

Vários especialistas económicos avisam que existe muito por esclarecer na venda do banco Banif ao grupo Santander, um negócio precipitado pelo governo de António Costa que poderá custar mais de 3,6 mil milhões de euros aos contribuintes.

 

“Este é um caso inédito na história financeira portuguesa. Deve-se fazer uma investigação judicial a todo o processo de venda do Banif e comparar as alternativas que existiam”, pediu Jorge Tomé no programa Negócios da Semana (emitido na SIC Notícias a 23 de Dezembro – ver vídeo abaixo). O antigo presidente executivo do banco madeirense defendeu a sua gestão e sublinhou a estranheza em torno das decisões tomadas pelo governo e pelo Banco de Portugal (BdP). “No final de Novembro foi aberto um concurso para a venda da posição do estado (60,5%) no Banif – através de uma operação desenhada pelo próprio BdP – por ser necessário encontrar um investidor que o capitalizasse. Tivemos vários interessados e conseguimos quatro propostas válidas, que seriam apresentadas na semana de 13 a 18 (de Dezembro).” Mas no dia 13 à noite tudo mudou: a TVI anunciou na televisão, no seu site e em várias redes sociais que estava “tudo preparado para o fecho do Banif”.


 
“Um episódio criminoso”

O gestor afirmou que só foi contactado pela estação de televisão depois da notícia ser emitida: “expliquei que a notícia era completamente infundada e que podiam confirmá-lo junto do ministério das Finanças e do BdP. A TVI pôs em causa a confiança do banco com uma actuação que considero criminosa e que deve ser investigada. Aquilo foi viral e desvalorizou brutalmente o banco, perdendo cerca de 1000 milhões de euros em cinco dias.” O BdP retirou então o Banif de todo este processo, começando a “negociar directamente com os investidores. Se o Banif tivesse analisado as propostas e negociado com os investidores, certamente teríamos, dentro da medida de resolução, encontrado um valor de venda superior. Mas o que saiu desta solução é um desastre para o estado e os contribuintes.” Jorge Tomé declarou que esta foi uma venda realizada por adjudicação directa num “contexto estranho, sem concorrência, fechado num fim-de-semana.” O Banif acabou por ser vendido ao grupo Santander, accionista de referência da Prisa, que por sua vez é proprietária da TVI.

“Não havia buraco nas contas”

O ex-presidente executivo disse também que, quando entrou no Banif em Março de 2012, encontrou uma “situação muito complicada. Se não fosse recapitalizado pelo estado teria de fechar nessa altura. Implementámos um programa de reestruturação de cinco anos – que foi completado em três. A exploração do Banif, que era altamente deficitária, passou a ser equilibrada. E em 2015 começou a ter resultados positivos.” Em Novembro foi noticiado que o Banif inverteu os prejuízos e apresentou um lucro de 6,2 milhões de euros nos nove primeiros meses de 2015. Jorge Tomé realçou que o banco reduziu a dívida de 3,2 mil milhões ao Banco Central Europeu para 900 milhões. E alegou que só não conseguiram pagar a última prestação de 125 milhões relativa ao empréstimo do estado português “porque o Banif foi apanhado na turbulência do BES em 2014.”

Defende também que, ao contrário do que foi subitamente divulgado, “não havia nenhum buraco no Banif. As contas eram auditadas e validadas semestralmente e anualmente, com o aval do BdP, que mantinha uma vigilância diária apertadíssima: via todas as operações de crédito, da área financeira e de avaliação de activos.” Além disso, salientou que o actual “responsável da supervisão bancária no BdP – António Varela – foi administrador do Banif e presidia à comissão de auditoria e risco.” E revelou que a equipa, nomeada pelo ministério das Finanças, que tinha a responsabilidade de ver as contas e avaliar o risco no Banif ficará com as mesmas funções no que restará desse banco. Factos que deixam muitas dúvidas: Se existe um gigantesco buraco no Banif, porque não foi detectado mais cedo pelo BdP e pelos auditores? E como é possível que os supervisores do BdP e do ministério não sejam responsabilizados?

Por último, Jorge Tomé garantiu que “os próprios administradores do Banif têm lá o seu património, através de acções, depósitos e obrigações. Investiam no banco porque acreditavam nesse projecto e nas contas que aprovavam.”

Banca protegida

João Vieira Pereira, director-adjunto do Expresso, escreveu que “o primeiro culpado da situação do Banif é a própria gestão liderada por Jorge Tomé”. Reconhece no entanto que “o banco tinha de resolver um problema de estratégia e de capital no futuro mas cumpriu sempre os rácios prudenciais a que estava obrigado e nunca teve um problema de liquidez. Estes últimos mudaram com a notícia alarmante e desastrosa da TVI, de que o banco ia fechar – foi o golpe de misericórdia na vida do Banif. A corrida aos depósitos iniciou um processo que acabou neste desfecho.”

“Fica para a história mais um banco que teve de ser salvo. E desta vez, ao contrário do que se passou com o BES, não será a banca a pagar a maior factura. Será o contribuinte. Esta foi uma clara escolha política.” Quem pagou a fatia de leão da intervenção no BES foi a banca – e as novas regras europeias ditariam o mesmo para o caso Banif, se este governo o tivesse vendido após 1 de Janeiro. A ‘solução’ socialista foi “supostamente a bem da estabilidade do sistema financeiro português, mas não deixa de ser um caminho diferente do BES. O BPN também era sistémico quando foi nacionalizado. Anos depois sabe-se que foi um erro colossal não deixar o banco falir. E porque não podem os bancos falir? Se todos os dias empresas fecham as portas, porque temos esta estranha obrigação de andar a salvar bancos? E para que serve um fundo de garantia de depósitos se o mesmo nunca é usado? Porque é que eu e você temos de pagar a incompetência de todos os intervenientes no caso Banif? Mário Centeno tem, enquanto ministro das Finanças, a obrigação de explicar muito bem a todos os contribuintes porque não deixou o banco simplesmente fechar. Tal como Bruxelas queria.”

Ler também: Banif: mais uma negociata?

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