Somos todos manipulados

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Publicado a 20 de Janeiro de 2015 no semanário O Diabo

Milhões de pessoas por todo o planeta uniram-se em solidariedade contra o brutal massacre em França, gritando ‘somos todos Charlie’. Mas existirá ainda liberdade de expressão? E quem apoia os terroristas?

 

Em 2011, as televisões diziam-nos que Muammar Gaddafi, outrora camarada dos líderes socialistas mundiais, era o novo inimigo nº1 da democracia – e um alvo a abater. Em Junho desse mesmo ano, o jornal Le Figaro revelava que a França (na altura liderada por Nicolas Sarkozy) tornava-se no primeiro país da NATO a fornecer ajuda militar directa – espingardas, metralhadoras, mísseis anti-tanque e lança-granadas RPG – aos grupos terroristas que tentavam derrubar Gaddafi na Líbia. Tratados carinhosamente pela televisão como ‘rebeldes’, estes terroristas eram liderados por Abdel-Hakim al-Hasidi – um membro da Al-Qaeda que confraternizou com Osama bin Laden. Três meses antes de ser armado pelos franceses, al-Hasidi assumiu numa entrevista ao jornal italiano Il Sole 24 Ore que uma grande parte dos ‘rebeldes’ líbios pertenciam à Al-Qaeda e lutaram contra tropas ocidentais no Iraque. Gaddafi acabou por ser capturado e torturado selvaticamente até à morte.

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Em Janeiro a RTP noticiou que, segundo vários relatórios da ONU e testemunhos de ‘capacetes azuis’, Israel tem dado apoio militar a terroristas ‘rebeldes’ pertencentes à Al-Qaeda e ao ‘Estado Islâmico’ que combatem contra Assad na Síria.

O inimigo nº1 da democracia que se seguiu foi o presidente da Síria, Bashar al-Assad. Em 2012, o recém-eleito governo socialista de François Hollande apelou à União Europeia para levantar o embargo de armamento aos ‘rebeldes’ sírios, de forma a permitir que os norte-americanos os armassem para combater Assad. O próprio Hollande confirmou em Agosto do ano passado ter fornecido armas aos ‘rebeldes’ sírios – que já receberam treino militar e centenas de milhões de dólares do governo de Barack Obama. Em Setembro de 2013, citei no semanário O Diabo vários artigos da imprensa britânica onde era confirmado que a maioria destes grupos ‘rebeldes’ juraram obediência à Al-Qaeda – e uma reportagem do The Guardian citava o líder de um dos grupos sírios afirmando encontrar-se “quase todos os dias” com líderes da Al-Qaeda para receber instruções. Como se vê, há muitos anos que países da NATO apoiam, treinam e financiam terroristas ligados à mesma Al-Qaeda que dizem combater no Médio Oriente (sem esquecer que essa organização é ela própria uma criação da CIA). E, segundo nos informam, os autores do massacre de Paris foram treinados por estes terroristas ‘rebeldes’ na Síria – e terão chegado a recrutar outros jovens franceses para lutar contra Assad.

Agente duplo?

Antes de ser abatido pela polícia a norte de Paris, um dos suspeitos do massacre – Chérif Kouachi – deu uma entrevista por telefone à televisão francesa BFMTV, onde declarou ser enviado pela Al-Qaeda do Iémen e financiado pelo líder islâmico Anwar al-Awlaki. As autoridades americanas garantem que al-Awlaki (alegadamente morto por um drone em 2011) era um recrutador da Al-Qaeda, tendo estado envolvido no 11 de Setembro de 2001 e em vários outros atentados atribuídos à organização. Na sequência de uma investigação de quatro anos, a estação televisiva Fox News revelou em Agosto de 2013 que al-Awlaki poderá ter sido um informador do FBI. Vários documentos desclassificados mostram que foi protegido por essa agência de investigação norte-americana, libertando-o da prisão em pelo menos três ocasiões. Já antes a Fox News noticiara que, poucos meses após o 11 de Setembro, al-Awlaki foi convidado a visitar o Pentágono – a sede do Departamento de Defesa dos EUA – onde jantou e confraternizou com altas patentes militares. Este é o vídeo da notícia, transmitido pela Fox News a 20 de Outubro de 2010:

Marcha dos terroristas

Os políticos manifestaram-se “contra o terrorismo”, enquanto nos bastidores apoiam os terroristas que lhes convêm e usam-nos como pretexto para invadir os países que não controlam e para restringir as liberdades dos cidadãos. Hollande, o democrata que impediu o principal adversário de participar no seu protesto VIP, já enviou o porta-aviões Charles de Gaulle e um submarino nuclear para o Iraque. E as televisões que choram pela “liberdade de expressão” continuam a esconder que os terroristas armados pelo ocidente já mataram centenas de milhares de cristãos e muçulmanos na Líbia, Síria, Iraque e Afeganistão. No mesmo dia da marcha de Paris o grupo de comunicação McClatchy noticiou que, a 28 de Dezembro passado, um ataque aéreo liderado pelas forças americanas terá morto mais de 50 civis na Síria. Nenhuma televisão reportou este massacre. Ninguém quis ser sírio.

Liberdade de expressão?

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“Liberdade de expressão” mas só para alguns:
Maurice Sinet foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma pequena piada que enfureceu a comunidade judaica.

Devo salientar que condeno o massacre em França, lamentando todas as vítimas – incluindo as mortes dos próprios terroristas. Mas a liberdade de expressão, que as televisões nos dizem ser a principal vítima deste atentado, já foi chacinada há muito tempo. Maurice Sinet – conhecido por Siné – é um cartoonista francês que colaborou no semanário satírico Charlie Hebdo. Mas está vivo: tinha sido despedido do Charlie em 2008, após ser processado judicialmente, acusado de “anti-semitismo” e ameaçado de morte. E nem foi por causa de um cartoon. Siné limitou-se a referir, numa crónica, a notícia que o filho de Sarkozy iria supostamente converter-se ao judaísmo, comentando: “irá longe, o rapaz!” E, meros dois dias após a marcha pela “liberdade de expressão” em Paris, o polémico humorista francês Dieudonné foi detido sob acusação de “defesa do terrorismo”. O crime? Escreveu “sinto-me Charlie Coulibaly” – um trocadilho entre Charlie Hebdo e o apelido de um dos suspeitos do massacre – criticando a hipocrisia dos que dizem defender a liberdade de expressão e ao mesmo tempo proíbem os seus espectáculos de humor.

Em Portugal a situação não é melhor. O grande cartoonista português Augusto Cid – que colaborou durante muitos anos no semanário O Diabo – desabafou a 12 de Janeiro no programa Você na TV da TVI (ver vídeo abaixo) que viveu com “represálias constantes”. Chegou a ser ameaçado por “um indivíduo que apontou uma pistola à cabeça da minha filha”. E não era nenhum radical islâmico – Cid satirizou políticos nacionais e investigou o atentado de Camarate. O cartoonista afirma-se “Charlie, mas só até ver”, lembrando que questionar as versões oficiais que nos contam é também uma forma de liberdade.

 

Post-scriptum: Augusto Cid também salientou que François Hollande é um dos maiores beneficiados pelos atentados terroristas em França. Uma sondagem do barómetro Ifop-Fiducial divulgada uma semana após estas declarações deram razão ao cartoonista: os atentados terroristas provocaram uma enorme subida da popularidade de Hollande, tão grande que se tornou o maior aumento de sempre na história dos estudos de opinião em França – e provocando títulos como Charlie Hebdo resgata Hollande (no jornal Sol). Um fenómeno semelhante ao dos atentados de 11 de Setembro, que aumentou a popularidade do então presidente George W. Bush e permitiu-lhe iniciar uma série de guerras no Médio Oriente – e possivelmente garantiu a sua reeleição em 2004.

Antes do massacre, Hollande não era só impopular: era mesmo o presidente mais odiado da V República francesa. Em Setembro de 2014, uma sondagem do barómetro político TNS Sofres/Le Figaro revelou que apenas 13% dos franceses depositavam alguma confiança em Hollande – e só 1% tinha “total confiança” no presidente. Estes números davam uma vitória certa de Marine Le Pen nas presidenciais de 2017.

Comentários

  1. diz

    Muito bom apanhado de vários factos, relacionados com estes atentados, que são mesmo muito importantes e que são simplesmente ignorados (/omitidos, /propositadamente “esquecidos”) pelos média de massas.

    Já sabia de muitas destas coisas, mas desconhecia por completo essas declarações do Augusto Cid. Vou ver esse vídeo.

  2. Paulo Varandas diz

    Tudo tem um fundo de verdade ,politicos e paises e medias que manipulam povos incredulos que procuram verdades escondidas por jogos de poder de senhores impunes e sorridentes perante camaras ,o povo bate palmas

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