O que não nos dizem sobre o voo MH17

MH17chamas

Artigo publicado a 29 de Julho de 2014 no semanário O Diabo

Ainda os destroços do avião da Malaysia Airlines fumegavam e já a comunicação social apontava o dedo à Rússia e a Vladimir Putin. Mas várias informações contradizem toda a versão oficial que nos mostram diariamente nas televisões.

 

Capa do <em>The Sun</em> de 18 de Julho: <em>“O míssil de Putin”</em>
Capa do The Sun de 18 de Julho: “O míssil de Putin”

A 17 de Julho a Malaysia Airlines voltou a ser notícia pelas piores razões: o voo MH17, que fazia a ligação entre a capital dos Países Baixos e a da Malásia, caiu no leste da Ucrânia, matando quase 300 pessoas. Pouco depois desta tragédia, as televisões sabiam o modelo do míssil que o atingiu e garantiam ter sido disparado por forças pró-russas na Ucrânia. Da forma como alguns políticos e jornalistas falam, muitos poderiam acreditar ter sido o próprio Putin a disparar o míssil.

A principal “prova” contra os russos foi o vídeo amador de um camião a transportar o sistema de defesa antiaéreo Buk/SA-11, um lançador de mísseis terra-ar controlados por radar. As televisões disseram-nos que essas imagens mostravam o lança-mísseis Buk, utilizado para abater o avião, a ser transportado por forças pró-russas para território russo. Mas vários bloggers e fontes noticiosas confirmaram depois que o vídeo foi filmado em Krasnoarmiysk, uma cidade ucraniana que está sob controlo de Kiev – e onde só os militares afectos ao actual governo ucraniano podem circular. Horas após a tragédia, o próprio Procurador-geral da Ucrânia – Vitali Yaremaafirmou à imprensa ucraniana que “os militares (ucranianos) confirmaram que os terroristas (forças pró-russas) não possuem o nosso sistema de mísseis Buk”.

<a href="http://www.dailymail.co.uk/news/article-2701700/Is-BUK-missile-launcher-downed-flight-MH17-Startling-new-picture-emerges-gun-toting-pro-Russian-separatist-posing-military-hardware-Ukraine.html" target="_blank">A comunicação social mostrou</a> <em>posts</em> feitos em páginas de fãs dos pró-russos nas redes sociais, dizendo ser a principal prova de que abateram o MH17. Foram até mostradas fotos de alegados pró-russos junto de um lança-mísseis, <a href="http://rt.com/news/174868-ukraine-buk-falsification-continues/" target="_blank">que era na verdade soldados do exército ucraniano</a>.
A comunicação social mostrou posts feitos em páginas de fãs dos pró-russos nas redes sociais, dizendo ser a principal prova de que abateram o MH17. Foram até mostradas fotos de alegados pró-russos junto de um lança-mísseis, que eram na verdade soldados do exército ucraniano.

Outra “prova” apareceu na forma de um vídeo no site YouTube, com a suposta gravação de uma comunicação entre um líder separatista e um coronel russo onde assumem ter abatido o avião. Os russos alegam que essa gravação é uma montagem de várias conversas diferentes. Na verdade, qualquer pessoa com conhecimentos de edição vídeo podia ter feito aquela montagem em poucos minutos. As outras evidências apresentadas pelos governos ucraniano e norte-americano são textos escritos nas redes sociais por supostos apoiantes das forças pró-russas, que reivindicam o abate de um avião (ver foto). Mais uma vez, qualquer pessoa podia ter escrito esses textos. Ao contrário do que os principais meios de comunicação nos dizem, não existe nenhum dado concreto ou evidência forense que prove sem dúvidas o envolvimento dos russos.

su25A Rússia, em sua defesa, apresentou imagens de satélite que mostram vários lança-mísseis Buk na zona onde o avião foi abatido e garante que pertencem aos militares ucranianos. Apresentou também registos de radar (na foto), com os quais argumenta que um caça militar ucraniano voou muito próximo do MH17. Os norte-americanos dizem possuir imagens de satélite que provam a culpa dos russos – mas não as mostram. Robert Parry, um jornalista norte-americano que trabalhou para a Associated Press e a Newsweek, escreveu no seu site consortiumnews.com que “uma fonte ligada aos serviços de inteligência norte-americanos revelou-me que eles possuem imagens de satélite da bateria de mísseis que poderá ter lançado o míssil fatídico. Essa bateria parecia estar controlada por forças do governo ucraniano, com uniformes ucranianos.”

Perguntas sem resposta

As rotas dos voos MH17 anteriores a 17 de Julho evitaram a zona de guerra na Ucrânia. Fonte: <strong><a href="http://flightaware.com/" target="_blank">flightaware.com</a></strong>
As rotas dos voos MH17 anteriores a 17 de Julho evitaram a zona de guerra na Ucrânia. Fonte: flightaware.com

No caso do voo MH370 da Malaysia Airlines, desaparecido misteriosamente a 8 de Março sobre o Oceano Índico, as autoridades divulgaram uma transcrição do diálogo entre os pilotos e os controladores de tráfego aéreo ao fim de três dias. Mas as gravações do voo MH17 continuam em segredo. No dia seguinte à queda do MH17, a BBC noticiou que “os serviços secretos ucranianos (SBU) confiscaram as gravações das comunicações entre os controladores de tráfico aéreo ucranianos e o avião abatido”. Onde estão estas gravações? Porque não foram entregues à comunidade internacional?

Excerto do comunicado da <a href="http://www.malaysiaairlines.com/my/en/site/mh17.html" target="_blank">Malaysia Airlines</a>.
Excerto do comunicado da Malaysia Airlines.

Mas a principal pergunta sem resposta é: quem dirigiu o voo MH17 para uma zona de guerra? A 23 de Abril, a autoridade aérea dos Estados Unidos (FAA) proibiu as companhias aéreas americanas de sobrevoarem aquela zona da Ucrânia. Os registos aéreos confirmam que a maioria das companhias internacionais, incluindo a própria Malaysia Airlines, já a evitava há vários meses. Mas no dia da tragédia, não só o MH17 tinha um plano de voo previamente autorizado pelas autoridades europeias no qual sobrevoaria uma zona de guerra, como – segundo consta num comunicado da própria Malaysia Airlines – “recebeu instruções do controlo de tráfego aéreo ucraniano para descer de cerca de 10660 para 10000 metros” (ver imagem acima). E a 20 de Julho o Times of India noticiou que, de acordo com o piloto de um avião da companhia Air India que voou perto do MH17, os controladores aéreos alteraram a rota do MH17 – poucos minutos antes de ser abatido. Os responsáveis pela rota perigosa do MH17 não são nem a Rússia nem Putin, mas sim as autoridades ucranianas e a própria Agência Europeia para a Segurança da Navegação Aérea (Eurocontrol) – estas entidades têm muito por explicar.

BRICS – nova ordem financeira?

BRICSÉ demasiado curioso que esta tragédia tenha ocorrido no dia seguinte à 6ª Cimeira dos BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – realizada em Fortaleza entre 14 e 16 de Julho. Não por acaso, esta Cimeira teve muito poucas referências nos principais meios de comunicação social. Mas quem leu a edição do semanário O Diabo de 22 de Julho sabe que os BRICS colocaram em causa a actual ordem financeira mundial, ao anunciarem a criação do seu próprio Banco de Desenvolvimento com um capital de 100 mil milhões de dólares sediado em Xangai e presidido por Moscovo. Este novo sistema, com o potencial de substituir o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, foi – nas palavras de Putin – concebido para “ajudar os países que são atacados por não concordarem com a política externa dos Estados Unidos e dos seus aliados”. Em suma, os BRICS querem dar um pontapé no dólar – uma moeda que se tem desvalorizado a um ritmo alucinante – e acabar com a hegemonia americana em vigor desde o fim da II Guerra Mundial, suportada por constantes conflitos militares em todo o planeta.

E de facto, basta passar os olhos por canais norte-americanos e europeus para ver comentadores políticos a fomentarem não só pesadas sanções como mesmo ataques militares contra a Rússia. Essas pessoas não nos dizem que, nos tempos que correm, uma guerra contra a Rússia não será fria mas sim nuclear – com a Europa bem no meio.

Comentários

  1. diz

    Excelente artigo.

    Respondeu, finalmente, à questão que muita gente na imprensa alternativa perguntava, de: “Quem é que decidiu pela rota que atravessava a zona perigosa da Ucrânia?”

    Quem quiser ouvir a opinião de um autor de renome internacional, que também acredita numa possível relação entre o (quase certo) abate deste voo MH17 e a recente, muito importante, cimeira da aliança BRICS, tem esta hiperligação:

    http://tarpley.net/malaysian-airliner-massacre-is-wall-street-city-of-london-riposte-to-creation-of-brics-bank/

    Também, há relatos (http://blackfernando.blogspot.pt/2014/08/reportagem-censurada-da-bbc-sobre.html) de um avião militar ucraniano que acompanhava o voo MH17, quando o último caiu.

    Assim como, análises que indicam que o voo MH17 poderá ter sido alvejado por tiros disparados por um avião militar (http://www.globalresearch.ca/german-pilot-speaks-out-shocking-analysis-of-the-shooting-down-of-malaysian-mh17/5394111 + https://twitter.com/arbolioto/status/497300868187045888/photo/1).

    (O que possivelmente indicia que as baterias de mísseis anti-aéreos ucranianas poderão ter sido parte de um plano alternativo de abate…)

  2. diz

    Olá Fernando,

    Este é mesmo um dos pontos mais importantes. Quando preparei este artigo enviei três perguntas para a Agência Europeia para a Segurança da Navegação Aérea (Eurocontrol) sobre a rota do MH17, que estão mais abaixo. No entanto se leres a resposta com atenção, verás que o Eurocontrol não respondeu directamente a nenhuma das minhas perguntas e descarta-se de todas as responsabilidades.
    Mas quem controla os céus da Europa é o Eurocontrol. São eles que autorizam todos os planos de voo no espaço aéreo europeu. E a própria Malaysia Airlines sublinhou que o plano de voo do MH17 estava, obviamente, autorizado pelo Eurocontrol.
    Terá a rota do MH17 sido alterada pelos controladores aéreos ucranianos, como noticiou o Times of India? Sendo levado para outra zona ainda mais perigosa do que estava no plano de voo aprovado pelo Eurocontrol? Se isto aconteceu, porque é que o Eurocontrol não responsabiliza publicamente as autoridades ucranianas?
    As gravações das comunicações entre os controladores aéreos ucranianos e os pilotos desapareceram – e pelos vistos, o Eurocontrol não tem nenhum problema com isso. Nem eles nem nenhuma autoridade ocidental.
    Os principais órgãos de comunicação ignoram este tema por completo.

     

    QUESTIONS TO EUROCONTROL:

    1 – Why did Eurocontrol authorize a flight plan that placed MH17 directly above a war zone in Ukraine, which was being avoided by many airliners and was deemed dangerous by the FAA?

    2 – Did or did not the Ukrainian air traffic controllers changed the route of the MH17? If they did it, what was their reason?

    3 – Where are the records of the communications between Ukrainian air traffic controllers and the pilots of the MH17?

    ANSWERS FROM EUROCONTROL:

    1 – The responsibility for closing airspace or routes lies solely with the relevant state – in this case Ukraine. Only when we have received such notice of closure can EUROCONTROL, as Network Manager, reject a flight plan for non-compliance. At the time of the MH17 flight, the airspace above FL320 (32,000 feet) was open. We are not aware that the FAA had expressed any such view of this airspace at this altitude at that time.

    2 – The route in the flight plan was selected by the airline. Although they had chosen an altitude of 35,000 feet for that part of eastern Ukraine, the fact that they were held by Ukrainian ATC at 33,000 feet is entirely normal and has no significance.

    3 – You would have to approach Ukraine for their recordings of any such communications or the investigation team for a transcript of the Cockpit Voice Recorder.

  3. diz

    O The Times of India, do muito pouco que conheço dele, parece-me ser uma fonte de confiança…

    Pois, foi até este jornal que também denunciou uma muito importante peça do “puzzle” do 11 de Setembro, ao noticiar que o suposto líder dos atentados, Mohamed Atta, tinha recebido uma transferência electrónica de 100 mil dólares do que era, na altura, o chefe dos serviços secretos paquistaneses (http://timesofindia.indiatimes.com/india/India-helped-FBI-trace-ISI-terrorist-links/articleshow/1454238160.cms).

    E não estou a ver pilotos de aviões comerciais (que, como pilotos que são, têm de ser pessoas muito sérias e responsáveis) a mentir sobre uma coisa destas. (Embora tenha eu de admitir que a India, como aliada da Rússia, tenha interesse em culpar o Ocidente disto…)

    Mas, se tal desvio ordenado realmente ocorreu, obviamente que o silêncio por parte da Eurocontrol (certamente dominada pela UE) é mais um indício da (grande) parceria que existe entre a UE e a Ucrânia, para culpar a Rússia disto.

    E, governo-fantoche da Ucrânia, governos da UE, Eurocontrol e média de massas ocidentais estão, obviamente, todos controlados pelos mesmos interesses que estão a tentar provocar um sério conflito entre o Ocidente e a Rússia…

    Excelente trabalho de investigação, da sua parte (ao ter escrito à Eurocontrol e também pelos outros resultados que publica).

    É muito agradável de se ver jornalismo a sério ser praticado em Portugal. 🙂

  4. António Veiga diz

    É verdade que a nossa comunicação social só nos apresenta a versão que mais interessa à chamada comunidade internacional (diga-se UE e EUA) e nada diz sobre as versões vindas de outras partes.
    Neste caso apenas interessa culpar a Rússia e o seu presidente até a SIC Notícias no programa Sociedade das Nações da semana passada foi buscar duas pessoas que na entrevista só vieram corroborar as afirmações politicamente corretas em face da tal comunidade internacional.

    Isto faz-me lembrar que já em vésperas da guerra que o Bush filho iniciou no Iraque, com base na mentira das armas de destruição massiva, a RTP foi descobrir um português que tinha trabalhado no Iraque, para afirmar que em todo o Iraque e principalmente em Bagdade, havia cidades subterrâneas e labirínticas completamente cheias de armas de toda a espécie as quais ninguém teria fácil acesso. Ele próprio as tinha ajudado a construir.

    Portanto, é este o crédito que pode ser dado à comunicação social e à sua tão badalada liberdade de imprensa.

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