As praxes e o silêncio

Meco

Publicado a 28 de Janeiro de 2014 no semanário O Diabo

A propósito da morte de seis estudantes da universidade Lusófona no Meco, vale a pena recordar o que acontece quando um jovem morre por causa de um ‘ritual académico’ e os colegas se mantêm calados.

Em 2001, Diogo Macedo – aluno do 4º ano de Arquitectura na universidade Lusíada de Famalicão – ficou em coma após uma praxe, acabando por morrer uma semana depois. A tuna académica, que chegou a fazer uma homenagem no funeral de Diogo, alegou ter sido um terrível acidente: o jovem tinha apenas sido obrigado a fazer umas “flexões”, após as quais teria tido uma “indisposição”. Mas perícias médicas posteriores revelaram que foi brutalmente espancado, apresentando hematomas por todo o corpo – inclusive um traumatismo crânio-encefálico e cervical, que lhe causou a morte.

Assim que o homicídio foi exposto, os alunos da Lusíada impuseram um pacto de silêncio cúmplice – igual ao que hoje vigora na Lusófona, uma universidade onde “há meninos trajados como abutres que impedem os colegas de falar com jornalistas (jornal i) e onde já apareceram ameaças a quem falar (jornal Público).

Uma investigação da jornalista Felícia Cabrita publicada em 2004 na revista Grande Reportagem e o ano passado no jornal Sol mostra o que acontece durante estes pactos de silêncio: “Após a morte de Diogo Macedo, a tuna convocou uma reunião de propósito para combinar uma ‘tese’ definitiva sobre os acontecimentos, com horas marcadas, e tudo foi reduzido a escrito. Nessa altura, alguns membros não aceitaram o papel que lhes era distribuído e abandonaram a tuna.”

Felícia Cabrita divulgou algumas escutas telefónicas da Polícia Judiciária, que apanharam os principais suspeitos – dois membros da tuna, um conhecido como ‘Tavinho’ e o outro como ‘Armário’ – a tentarem combinar a história que iriam contar às autoridades. Perguntava Tavinho: “Pronto, o que ele (inspector da PJ) pensa é que estivemos na sala da tuna, mas ouve, ficámos a sacar músicas e o resto do pessoal foi ensaiar, percebes?” E Armário: “Não”. Tavinho insiste, mas Armário não entendia o recado: “A ideia que eu tenho é que nem se chegou a ensaiar nesse dia…” Tavinho interrompe, repete tudo de novo. À terceira, Armário finalmente percebe: “É provável, é”. Num outro telefonema interceptado pela PJ foi possível ouvir estes universitários a rirem-se e a gozarem com a morte do colega Diogo.

Apesar disto, os principais suspeitos não passaram de arguidos no processo-crime, arquivado pelo Ministério Público por falta de provas. Felizmente os pais de Diogo nunca desistiram de procurar alguma forma de justiça e processaram a universidade Lusíada, que foi no ano passado condenada pelo Supremo a pagar 91 mil euros de indemnização. O acórdão deste tribunal menciona que, entre muitas outras torturas e humilhações, Diogo foi golpeado na nuca com um livro da faculdade. E que a tuna da Lusíada pedia aos caloiros para “atravessarem um rio a meio da noite, com o objectivo de pôr à prova a sua sagacidade”. Treze anos depois, a família de Diogo ainda não tem todas as respostas.

Muitos estudantes da Lusófona mantêm-se hoje em silêncio na esperança que a morte de seis colegas no Meco fique impune, tal como a morte de Diogo em Famalicão, ou a morte da jovem Cristina Ratinho após uma praxe no Instituto Politécnico de Beja em 2012 – sete praxes mortais em apenas alguns meses, e apenas em universidades. Quem também mantém o silêncio é o próprio líder da praxe do Meco, com uma “amnésia selectiva” diagnosticada por um psicólogo e professor… da Lusófona.

NOTA: Uma semana após a publicação desta crónica, o Jornal de Notícias confirmou que o Conselho da Praxe da Lusófona reuniu-se no dia a seguir à tragédia, encontro no qual as “reacções foram concertadas”, tal como sucedeu no caso da Lusíada de Famalicão; e o Diário de Notícias publicou uma entrevista a Fernando Pinto Monteiro, ex-procurador-geral da República, no qual este critica o tempo que se perdeu até se iniciar a investigação da tragédia do Meco: “As investigações para casos destes devem ser feitas prontamente, tanto na recolha de indícios como de depoimentos, que é para não haver tempo de as testemunhas falarem com amigos e combinarem versões”.

Comentários

  1. diz

    Mais uma prova do quão cobarde é o povo português, em geral – que se manifesta nas gerações mais novas.

    Que haja pessoas mal-formadas que queiram fugir à justiça, não me surpreende. Agora, que não haja *uma única pessoa* na Lusófona que seja capaz de falar e que, cada vez que sejam filmados, se ponham os vampiros a esconder as suas caras debaixo das batinas…

    Enfim. Por alguma razão este é também o país onde as pessoas mais se deixam oprimir e ser exploradas.

  2. Loreta diz

    E não tenho filhos, por isso nem consigo imaginar o esta senhora passou, mas que eu acho esta história muito estranha, acho.
    Muito conveniente.
    Depois de ler a reportagem da Felicia Cabrito eu achei tudo muito bizarro.
    O hospital não lhes queria dizer que o filho foi espancado, o médico que denunciou o caso suicidou-se (se é que foi suicidio, e não limparam o sebo ao médico), e a policia tinha provas, (incluindo escutas telefónicas), mas arquivou o processo.
    Eu sei que se os superiores da força policial mandam os subalternos ficar de boca fechada, eles têm que ficar, mesmo que não concordem, mas não vejo o que poderiam ter eles a ganhar com isso neste caso em particular.
    A não ser dinheiro.
    Agora falta saber quem lhes pagou para arquivarem o processo, se foi a faculdade, ou se foi algum aluno.
    Até porque de acordo com aquilo que a Sra Macedo disse, numa ocasião que apareceu na faculdade, os estudantes tornaram-se fisicamente agressivos com ela.
    Porquê ?
    Tinham alguma coisa a esconder ?
    Eu se estivesse no lugar dela contratava um investigador particular para investigar o caso.
    Pelo menos esse fazia o trabalho dele, porque estava a ser pago por ela, em vez de subornado por fedelhos mimados que andam a passear os livros.
    Ja agora se alguém souber o contacto desta senhora eu deixo-lhe o contacto duma agência.
    Telm. 912155881
    E-mail: ruidetective@gmail.com

  3. Sofia Silva diz

    Diogo Macedo SENTIU-SE MAL em 2001, durante os ensaios da Tuna.
    Os colegas assustados chamaram o segurança da Faculdade (BOMBEIRO), que via rádio chamou uma ambulância que o levou para o Hospital de Famalicão.
    Um dos colegas ligou à irmã, informando-a do estado do Diogo.
    Após algum tempo no Hospital de Famalicão, é transferido para o Hospital de São João no Porto onde o esperava uma equipa médica e o seu TIO (médico no mesmo Hospital).
    Durante o lapso de tempo em que esteve hospitalizado, não recebeu nenhuma visita de membros da Tuna, tendo sido submetido a exames, cirurgia, entre outros actos médicos.
    Veio a falecer no dia 15 de outubro.
    Quando, já estava a decorrer o funeral o mesmo foi interrompido por ordem judicial com base numa queixa apresentada por um médico do Hospital onde o Diogo tinha estado internado DURANTE 7 DIAS.
    De referir que o médico autor da queixa se suicidou pouco tempo depois.
    Autopsiado, a médica legista concluiu que as agressões tinham sido feitas pouco tempo antes do Diogo falecer.
    Com base nos resultados da autópsia, foi aberto um processo de investigação tendo Olavo Almeida sido constituído arguido POR ESTRATÉGIA DE INVESTIGAÇÃO, acabando por ser ilibado.
    Contudo, a Universidade Lusíada foi condenada a pagar uma indemnização de 90.000€, NUM PROCESSO CÍVEL.
    Como o caso se tornou mediático a mãe do Diogo, nas alturas da recepção aos caloiros e queimas das fitas, tentou de forma desesperada relembrar o caso, numa tentativa de apurar a verdade acerca do que se tinha passado com o filho.
    Em 2014, nesses programas de parcialidade duvidosa teve a veleidade de afirmar que Olavo Almeida era o assassino do seu filho.
    Face a esta afirmação, o Olavo moveu uma acção crime à supracitada Sra., tendo o julgamento começado no dia 23 do corrente mês, no tribunal da Maia.

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