Deixem a Síria em paz

Um combatente turco da Frente Al-Nusra (à esquerda) mantém posição junto a outros ‘rebeldes’ na aldeia síria de Aziza. No seu casaco é possível ver claramente o símbolo da Al-Qaeda. Foto Guillaume Briquet/AFP

Publicado a 10 de Setembro de 2013 no semanário O Diabo

 
“Porque é que Barack Obama apoia a Al-Qaeda na Síria?” – esta é uma pergunta que várias figuras (como o ex-congressista norte-americano Ron Paul) têm feito por esse mundo fora. A presença da Al-Qaeda na Síria é um dos muitos factos incómodos ocultados pelos políticos e pela maioria da comunicação social. Outro facto ‘esquecido’ é que, na verdade, a actual guerra na Síria começou em Abril de 2011 – com violentos ataques armados contra o governo e a população síria, apresentados nas TVs como ‘protestos’. Eles faziam parte da chamada ‘primavera árabe’, um ‘movimento revolucionário’ que nos diziam ser a melhor coisa que alguma vez aconteceu ao povo árabe. E o que foi realmente essa ‘primavera’? Nesse mesmo mês, um artigo do New York Times explicava como a ‘primavera árabe’ foi criada pelo poder norte-americano: “As organizações norte-americanas de promoção da democracia têm desempenhado um papel bem maior do que é conhecido no fomento destes protestos, ajudando os líderes dos movimentos a realizarem campanhas, utilizarem as redes sociais e a controlarem eleições. De acordo com várias entrevistas e telegramas diplomáticos divulgados pelo WikiLeaks, a maioria dos grupos e indivíduos envolvidos nas revoltas no Médio Oriente foram mesmo treinados e financiados por instituições como o International Republican Institute (um instituto fundado pelo governo norte-americano), o National Democratic Institute (igualmente fundado pelo governo americano) e pela Freedom House, uma organização não governamental de defesa dos direitos humanos baseada em Washington.” Estas instituições “fazem quase às claras o mesmo que a CIA tem feito clandestinamente há décadas”, como escreveu o historiador americano William Blum.

Na Síria, os ‘rebeldes’ do chamado Exército Livre da Síria combatem o governo de Bashar al-Assad, cuja família é acusada de ocupar o poder desde os anos 70 (o mesmo se pode dizer dos partidos políticos em Portugal). É público que estes ‘rebeldes’ têm apoio da NATO, têm sido treinados por forças especiais norte-americanas na Jordânia e já receberam quase 500 milhões de dólares do governo de Obama. Assad não é um santo, mas os seus opositores não são melhores. Em Julho de 2012, o jornal The Guardian noticiou que muitos ‘rebeldes’ sírios admitem ser liderados por terroristas da Al-Qaeda, com quem se encontram “quase todos os dias”. Em Dezembro, o The Telegraph revelou como 29 grupos ‘rebeldes’ juraram obediência à Frente Al-Nusra – um dos braços armados da Al-Qaeda. E em Abril deste ano, o Telegraph confirmou que o líder da Frente Al-Nusra – Abu Mohammad al-Golani – declarou fidelidade ao líder da Al-Qaeda. Moaz al-Khatib, que foi até há pouco tempo líder da Coligação Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias, garante que a Frente al-Nusra é um grupo aliado dos ‘rebeldes’. O mesmo aconteceu na Líbia: o Grupo de Combate Islâmico Líbio, fundamental na ‘libertação’ desse país e no derrube de Gaddafi, foi apoiado pela NATO – mesmo estando ligado à Al-Qaeda. E não podemos esquecer que a Al-Qaeda é ela própria uma criação da CIA, formada para combater as forças soviéticas no Afeganistão nos anos 80. De resto, só o Exército Livre da Síria tem acumulado uma lista de atrocidades – principalmente contra cristãos – que seria impossível enumerar em todas as páginas deste jornal.

Além disto, tenho de perguntar: como é possível que alguém apoie uma intervenção militar na Síria? Ninguém aprendeu nada em 12 anos de guerras de ‘libertação’ inteiramente baseadas em mentiras? E que autoridade têm os EUA para criticarem um ataque com armas químicas – que ainda ninguém provou ter sido realizado pelo governo sírio – quando eles próprios utilizam rotineiramente armas com urânio empobrecido, fósforo branco e bombas de fragmentação?

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