Portas e Seguro juntos no Bilderberg

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Artigo publicado a 18 de Junho de 2013 no semanário O Diabo

O número dois do actual governo e o número um da oposição estiveram numa reunião secreta com algumas das figuras mais poderosas do planeta. Nenhum jornalista lhes perguntou o que foram lá fazer. Nenhum político fez qualquer comentário. São as regras do jogo.

Reportagem especial em Londres

 

Francisco Pinto Balsemão, apanhado a entrar na reunião Bilderberg de 2013. Apesar de seguir numa viatura com vidros fumados, um jornalista independente conseguiu fotografá-lo através da janela do motorista.
Francisco Pinto Balsemão, apanhado a entrar na reunião Bilderberg de 2013. Apesar de seguir numa viatura com vidros fumados, um jornalista independente conseguiu fotografá-lo através da janela do motorista.

Em público, Paulo Portas e António José Seguro são adversários políticos: Portas é o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros; Seguro é o líder do Partido Socialista, o maior partido da oposição. Mas todas as suas aparentes divergências ficaram à porta do The Grove em Watford, nos arredores de Londres (na foto acima) – o hotel que entre 6 e 9 de Junho acolheu a mais recente reunião Bilderberg. Um encontro que o próprio Diário Económico descreveu em 2009 como “a reunião quase secreta dos mais influentes do mundo”, onde “membros dos governos, especialistas em defesa, empresários dos meios de comunicação social, banqueiros, economistas, líderes políticos e membros das famílias reais se juntam para definir linhas políticas para o mundo”.

Paulo Portas, António José Seguro e Durão Barroso estiveram juntos no Bilderberg 2013.
Paulo Portas, António José Seguro e Durão Barroso estiveram juntos no Bilderberg 2013.

Olhando para a lista oficial com mais de 140 convidados, é possível ver que Portas e Seguro passaram quatro dias com directores executivos dos maiores bancos, petrolíferas, farmacêuticas e muitas outras poderosas multinacionais como a Google e a Amazon; juntamente com figuras como David Petraeus, ex-director da CIA; Lord Mandelson, antigo braço-direito de Tony Blair e Gordon Brown; Timothy Geithner, ex-presidente da Reserva Federal norte-americana; Christine Lagarde, directora do FMI; e, como habitual, Henry Kissinger, antigo secretário de estado norte-americano. Com eles estavam dois outros portugueses, presenças frequentes nestas reuniões: Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia; e Francisco Pinto Balsemão, membro da direcção do Bilderberg desde os anos 80.

Hillary Clinton, aqui fotografada a entrar no encontro de 2013, é um dos muitos nomes que ficaram de fora da lista oficial de participantes, divulgada desde 2011 pela própria organização do Bilderberg.
Hillary Clinton, aqui fotografada a entrar no encontro de 2013, é um dos muitos nomes que ficaram de fora da lista oficial de participantes, divulgada desde 2011 pela própria organização do Bilderberg.

Mas vários participantes tentam ocultar a sua presença – afinal de contas, esta é uma reunião secreta. Mark Anderson, editor do jornal independente norte-americano American Free Press, revelou-me que Hillary Clinton (um nome que não estava na lista) “foi vista a entrar nesta reunião de 2013. Ela acabou de terminar o mandato como secretária de estado dos Estados Unidos e é uma mulher com ambições presidenciais – será interessante ver se ela se torna mesmo a primeira mulher na presidência norte-americana”. Este comentário não vem por acaso: Bill Clinton, o seu marido, compareceu no encontro Bilderberg de 1991 e dois anos depois tornava-se presidente dos EUA. A própria Hillary compareceu na reunião de 2008 juntamente com Barack Obama: meses depois Obama era presidente e Hillary a sua secretária de estado.

Seguro: “Não respondo a essa pergunta”

O momento em que António José Seguro vira a cara a um jornalista que o questiona sobre Bilderberg.
O momento em que António José Seguro vira a cara a um jornalista que o questiona sobre Bilderberg.

2013 é aliás o primeiro ano em que a organização do Bilderberg divulgou a lista de convidados antes do início do encontro. Este facto, conjugado com a relevância dos convidados portugueses desta reunião, terá feito com que alguns meios de comunicação portugueses fizessem algumas referências – discretas – ao Bilderberg. A 4 de Junho, à saída de um encontro com Portas na sede do CDS, Seguro cruzou-se com jornalistas. Quando alguém lhe questionou o que seria discutido no Bilderberg, Seguro irritou-se, virou a cara e respondeu: “peço imensa desculpa, não respondo a essa pergunta”. Este breve momento, transmitido em directo na SIC Notícias, não foi repetido em nenhum canal – mas torna-se histórico por ser provavelmente a única vez que um membro do Bilderberg foi confrontado na televisão portuguesa. Em 2004, o semanário Expresso explicou que “uma das regras de ouro destas reuniões é o secretismo absoluto”, tal como sucede em sociedades secretas como a Maçonaria. Tanto Seguro como Portas estão agora sujeitos a um pacto de silêncio que vai muito além da reunião.

Sinal dos tempos

Esta participante da reunião Bilderberg de 2013 usou óculos escuros e uma mala para esconder a cara, mas os vidros fumados foram suficientes para manter o anonimato. Vários convidados deitaram-se nos bancos traseiros para fugir às objectivas dos jornalistas independentes.
Esta participante da reunião Bilderberg de 2013 usou óculos escuros e uma mala para esconder a cara, mas os vidros fumados foram suficientes para manter o anonimato. Vários convidados deitaram-se nos bancos traseiros para fugir às objectivas dos jornalistas independentes.

Como de costume, as medidas de segurança foram colossais. O The Grove ficou totalmente isolado do resto do planeta, com o espaço aéreo fechado, centenas de polícias e vários perímetros de segurança – sendo um deles uma gigantesca muralha metálica. Mas, pela primeira vez, milhares de pessoas vindas um pouco de todo o mundo ocidental juntaram-se nas imediações do hotel para questionarem os reais motivos desta reunião (ver artigo A vista de Bilderberg). Charlie Skelton, um jornalista do jornal britânico The Guardian que tem acompanhado os últimos Bilderberg, explicou que “durante o fim-de-semana, uma área de terreno do hotel que estava reservada para a imprensa transformou-se numa zona pública. Esse recinto acolheu milhares de pessoas – quando na reunião de 2009 apareceu apenas uma dúzia.”

Outros membros do Bilderberg preferem esconder os rostos atrás de jornais. Este não teve problemas em utilizar uma edição do Daily Mail com uma manchete sobre um caso de pornografia infantil (foto de Oli Scarff).
Outros membros do Bilderberg preferem esconder os rostos atrás de jornais. Este não teve problemas em utilizar uma edição do Daily Mail com uma manchete sobre um caso de pornografia infantil (foto de Oli Scarff).

Mesmo sujeitas a controlos semelhantes aos dos aeroportos, sendo revistadas por seguranças com detectores de metais, “juntaram-se filas enormes de pessoas para entrar no recinto, sendo estimado que mais de duas mil foram impedidas de entrar por falta de espaço. Houve mais pessoas barradas no Bilderberg 2013 do que às portas de todos os outros. Se isso não é um sinal dos tempos, não sei o que será”.

Pacto de silêncio

O primeiro encontro oficial Bilderberg foi organizado em 1954 por personalidades como Józef Retinger (um dos impulsionadores da União Europeia) e o Príncipe Bernardo dos Países Baixos. Durante décadas, políticos e jornalistas negaram a existência destas reuniões e quaisquer menções eram consideradas ‘teorias da conspiração’.

Jim Tucker (1934 – 2013), o homem que expôs ao mundo a sociedade secreta Bilderberg.
Jim Tucker (1934 – 2013), o homem que expôs ao mundo a sociedade secreta Bilderberg.

Hoje já não as conseguem esconder, graças ao trabalho de jornalistas independentes como Jim Tucker, que seguiu o Bilderberg durante quase 40 anos – até ao seu trágico falecimento em Abril passado, vítima de doença. Mas a verdadeira influência destes encontros continua a ser abafada pela comunicação social dita ‘de referência’. Vários dos anteriores convidados, como o ex-ministro dos negócios estrangeiros belga Willy Claes, admitiram que os membros do Bilderberg recebem relatórios que terão depois de ter “em consideração quando tomam decisões políticas” nos seus países. Recordo que Portas é ministro deste governo e que Seguro é o líder do maior partido da oposição. Porque é que nenhum dos partidos políticos com assento parlamentar os questionou sobre a sua comparência nesta reunião? Porque é que nenhum jornalista o fez? Eu próprio enviei pedidos de esclarecimentos a Portas, Seguro e a Pinto Balsemão. Até à data de publicação deste artigo não houve qualquer tipo de resposta.

Temos de estar atentos

Comentário de Frederico Duarte Carvalho

Foto: Jornal de Negócios
Foto: Jornal de Negócios

A partir de hoje temos de estar particularmente atentos ao que Paulo Portas e António José Seguro vão fazer. Todos os seus movimentos, propostas políticas e ideias poderão estar inquinadas pelo facto de terem ido ao encontro do Grupo Bilderberg. Estes dois líderes da Oposição a Passos Coelho – isto a acreditar nas palavras de Marques Guedes sobre Paulo Portas ser líder da Oposição – já não exprimem opiniões que possam ser consideradas livres ou genuinamente suas. Podem ser ideias políticas combinadas em segredo com os donos das Finanças mundiais, os chamados “donos do mundo”. Compreendo que seja atractivo para o ministro Paulo Portas passar duas noites seguidas num hotel do ‘countryside’ inglês rodeado pelos mais famosos financeiros do mundo. O problema é que o ministro Portas e o deputado Seguro são funcionários públicos e nenhum deles deveria sentir-se bem ao passar duas noites na companhia do “inimigo” dos portugueses que, neste momento, é a Finança privada internacional. António José Seguro, quando interrogado pelos jornalistas antes de ir ao encontro – facto raro e de saudar –, respondeu que iria ao restrito encontro do Grupo Bilderberg dizer o que sempre disse em público. Resta agora saber se Seguro vai continuar a dizer o que sempre disse ou se deixará de o dizer caso algum dia venha a ser eleito. Quanto a Passos Coelho, apenas pelo facto de ainda não ter merecido ser convidado por Balsemão, acaba por merecer da minha parte uma certa admiração. Até sou capaz de ficar a pensar que, afinal, não deve ser de todo um mau tipo.

 

SIC: “Bilderberg é entendido como antecâmara do poder”

Esta é a reportagem da SIC sobre a reunião Bilderberg de 2013, provavelmente a primeira que a estação de televisão realizou sobre estes encontros secretos. Nesta ocasião, a SIC não teve nenhum pudor em estabelecer uma relação directa entre a participação de Pedro Santana Lopes e José Sócrates na reunião de Junho de 2004 em Itália e a ascensão meteórica de ambos ao cargo de primeiro-ministro poucos meses depois.

Comentários

  1. Jaime V. diz

    Ali se reunem os maiores genocidas na história da humanidade. Kissinger o maior de todos pois tem à sua conta milhões de mortos vítimas dos sangrentos golpes de Estado que perpetrou por todo o mundo. A guerra do Vietname, a Invasão e destruição do Iraque e Afeganistão são o seu expoente máximo.
    Mas há ainda os assassinos, mandantes e executantes. Pinto Balsemão é um conspirador permanente. Homem de confiança das satânicas figuras que controlam as finanças do mundo capitalista e lançaram os povos europeus na miséria. Balsemão devia ainda explicar a morte de Sá Carneiro.

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