Bilderberg: O poder oculto (reportagem de 2010)

HotelDolceSitges

Esta é a versão integral de um artigo publicado a 29 de Junho de 2010 no semanário O Diabo e no primeiro número da revista cultural FINIS MUNDI

A elite política e a alta finança do planeta reuniu-se novamente no início do mês, acertando as agulhas em plena ebulição económica.

Reportagem especial em Sitges

 

Eles encontram-se em segredo e actuam na sombra. Todos os anos, cerca de 130 membros da elite política e da alta finança isolam-se do resto do planeta por vários dias. O Diário Económico descreve este evento como “a reunião quase secreta dos mais influentes do mundo. Há 55 anos que os líderes mais influentes da Europa e dos Estados Unidos da América se reúnem nos encontros de Bilderberg. Membros dos Governos, especialistas em defesa, empresários dos meios de comunicação social, banqueiros, economistas, líderes políticos e membros das famílias reais juntam-se para definir linhas políticas para o mundo.” O semanário Expresso atesta que “uma das regras de ouro destas reuniões é o secretismo absoluto”, e sublinha que “um dos critérios para a indicação dos participantes é a sua importância e influência presente… ou futura.”

Foto de Thomas Gasser.
Foto de Thomas Gasser.

Em 2010 o local escolhido foi o luxuoso hotel Dolce em Sitges, perto de Barcelona (na foto acima). Tal como nos anos anteriores, ficou interdito ao público durante uma semana, fortemente guardado pela parafernália que habitualmente rodeia estes encontros: helicópteros, serviços secretos, postos de controlo e centenas de polícias mantiveram um longo perímetro de segurança, numa operação que terá custado mais de 10 milhões de euros aos contribuintes espanhóis. Nos quatro dias da reunião, decorrida entre 3 e 6 de Junho, a maior parte dos membros do grupo permaneceu no interior do hotel; tal como os empregados, que tiveram de assinar acordos de confidencialidade.

A ponta do Bilderberg

Foto de Josep Lago.
Foto de Josep Lago.

A aura de silêncio em torno do Bilderberg estende-se sempre muito além dos cordões policiais. Nas décadas seguintes à realização do primeiro encontro oficial, organizado em 1954 por personalidades como Józef Retinger – um dos impulsionadores da União Europeia (UE) – e o Príncipe Bernardo dos Países Baixos, muito poucos o conheciam. A comunicação social manteve-o sob um manto de silêncio. Durante décadas, políticos e jornalistas negaram a existência do Bilderberg, e quaisquer menções a estes encontros eram consideradas como ‘teorias da conspiração’, concebidas por tenebrosos ‘extremistas’. Em Portugal, nenhum dos partidos políticos com assento parlamentar ousa dizer uma única palavra sobre a participação de políticos portugueses no Bilderberg, mesmo os que ocupam cargos de governação nacional.

Fernando Teixeira dos Santos, fotografado à saída do Bilderberg (foto de Paul Dorneanu).
Fernando Teixeira dos Santos, fotografado à saída do Bilderberg (foto de Paul Dorneanu).

Só nos últimos anos alguma imprensa escrita tem gradualmente referido, de forma discreta, a realidade destas reuniões. A 2 de Junho de 2010, possivelmente pela primeira vez, a LUSA emitiu uma curta notícia sobre o encontro, para o qual Francisco Pinto Balsemão – membro da direcção do Bilderberg desde os anos 80 – convidou o eurodeputado Paulo Rangel e o Ministro de Estado e das Finanças Fernando Teixeira dos Santos. Essa notícia chegou a ser publicada no site da SIC, um ‘erro’ prontamente corrigido: poucas horas depois já não existia nesse site nenhuma alusão ao Bilderberg, o artigo jazia agora no orwelliano ‘buraco da memória’.

Agenda política

Willy Claes (à esquerda), fotografado junto de Francisco Pinto Balsemão nas imediações da reunião Bilderberg de 2003 em Versailles, Paris.
Willy Claes (à esquerda), fotografado junto de Francisco Pinto Balsemão nas imediações da reunião Bilderberg de 2003 em Versailles, Paris.

Mas o que realmente se passará nestas reuniões? Willy Claes, antigo ministro dos negócios estrangeiros da Bélgica que compareceu nos encontros Bilderberg de 1994 e 2003, declarou a 4 de Junho de 2010 numa entrevista à estação belga Radio 1 que os membros têm normalmente direito a realizar uma declaração de dez minutos, sendo fornecido um relatório de cada uma destas apresentações a todos os participantes. “É óbvio que os participantes têm depois estes relatórios em consideração quando tomam decisões nas áreas políticas respectivas”, afirmou Claes, que foi secretário-geral da NATO entre 1994 e 1995 (tendo sido nomeado para esse cargo três meses depois de comparecer na sua primeira reunião secreta). Este e muitos outros depoimentos confirmam que os membros do Bilderberg colocam em prática nos seus países a agenda política que lhes é fornecida nestes encontros secretos.

O nascimento da União Europeia

Pinto Balsemão, fotografado à porta do hotel onde decorreu a reunião Bilderberg de 2010 (foto de Quiero Saber).
Pinto Balsemão, fotografado à porta do hotel onde decorreu a reunião Bilderberg de 2010 (foto de Quiero Saber).

Um dos vários exemplos da agenda política implementada através destas reuniões é a própria UE. Em 2003, uma equipa de investigação da BBC divulgou documentos secretos da reunião Bilderberg de 1955, onde se preparou a criação da UE e da moeda única, mais de 40 anos antes da sua implementação. Esses documentos esboçam um plano para “se chegar o mais rapidamente possível a um mercado europeu comum”, mencionam “a necessidade de se alcançar uma moeda única” e revelam terem chegado a um consenso no qual “o mercado comum deverá ser implementado através de um tratado”. Com efeito, foi dois anos mais tarde que a primeira versão da UE nasceu, com a assinatura do Tratado de Roma.
Étienne Davignon, antigo presidente da direcção do Bilderberg e antigo vice-presidente da Comissão Europeia, confirmou em Março de 2009 ao jornal online EUobserver que “o grupo Bilderberg foi fundamental para a criação do Euro durante a década de 90”. E esta é apenas a ponta do Bilderberg.

25 de Abril

De acordo com o Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, no decurso da reunião de 19 a 21 de Abril de 1974, realizada em França – na qual estiveram presentes Henry Kissinger; Joseph Luns, na altura o secretário-geral da NATO; Walter Mondale, que viria a ser vice-presidente dos EUA; e membros destacados da família Rockefeller – foi discutida “a iminência de alterações políticas em Portugal. Ter-se-à decidido não contrariar a evolução dos acontecimentos, crendo que a mudança política poderia conduzir ao liberalismo económico”. Este facto sugere que o golpe militar do 25 de Abril teve o aval e possivelmente o apoio da alta finança mundial.

Na sombra

Em 2008, um artigo do Diário de Notícias mencionava: “há quem diga que para se ser eleito primeiro-ministro há que passar pelo crivo do influente Clube de Bilderberg.” Talvez porque tanto António Guterres como Pedro Santana Lopes e José Sócrates ocuparam esse lugar poucos meses depois de entrarem no clube. Os seus membros alcançam promoção política a troco da obediência a planos inconfessáveis, existindo dezenas de casos de ascensões meteóricas a altos cargos pouco tempo depois da comparência nas reuniões.

Jim Tucker, o veterano jornalista da American Free Press.
Jim Tucker, o veterano jornalista da American Free Press.

Manobras nada estranhas a Jim Tucker, um jornalista norte-americano que os segue há mais de 35 anos: “Bilderberg tem um imenso poder”, afirmou-nos o veterano. “No início dos anos 70, Jimmy Carter era um completo desconhecido, apesar de ser governador do estado da Geórgia. David Rockefeller introduziu-o na Comissão Trilateral – um outro grupo que colabora com o Bilderberg. Pouco tempo depois era eleito presidente dos Estados Unidos. Em 1991 Bill Clinton era também um desconhecido, governador do Arkansas – mas comparece na reunião Bilderberg desse ano e meses depois derrota George Bush nas eleições. Dentro dos encontros eles decidem conforme os seus próprios interesses. Um dos seus objectivos é suprimir as soberanias nacionais e diminuir o nível de vida nos EUA e na Europa, levando a que todos nós fiquemos dependentes de interesses financeiros internacionais. Desde o início dos tempos que as coisas boas são feitas às claras. O trabalho sujo é que é praticado na sombra.”

Como sempre, a maioria dos participantes da reunião de 2010 ocultou a identidade. Quem não conseguiu viaturas com vidros fumados escondeu a cara com o que tinha à mão – muitos usaram jornais (foto de Paul Dorneanu).
Como sempre, a maioria dos participantes da reunião de 2010 ocultou a identidade. Quem não conseguiu viaturas com vidros fumados escondeu a cara com o que tinha à mão – muitos usaram jornais (foto de Paul Dorneanu).

Tive a iniciativa de me deslocar a Sitges para me juntar às dezenas de activistas e jornalistas independentes que, por sua conta e risco, se deslocaram um pouco de todo o mundo para cobrir o evento, e fotografar os participantes do encontro Bilderberg. Participantes estes que eram por vezes vistos a passar pelos cordões policiais, no interior das viaturas de alta cilindrada em que se faziam transportar. Foi assim que vi, com os meus próprios olhos, governantes mundiais, banqueiros e directores-gerais das maiores multinacionais tentarem esconder os seus rostos – alguns com jornais, pastas, ou com as próprias mãos – quando passavam perto das nossas objectivas. Vi a expressão de surpresa do ministro Teixeira dos Santos ao perceber que estava a ser fotografado. Estes são alguns dos homens mais poderosos do planeta. Têm medo do quê? Se nada de estranho se passa nestas reuniões, porque é que a maior parte deles esconde a cara?

Este participante usou as próprias mãos para manter o anonimato (foto de Thomas Gasser).
Este participante usou as próprias mãos para manter o anonimato (foto de Thomas Gasser).

Seja o que for que aconteça dentro do Bilderberg, Teixeira dos Santos é o Ministro de Estado e das Finanças e esteve fechado durante dias numa reunião secreta com a elite empresarial e política mundial. Nenhum partido político português da chamada “oposição” no parlamento disse uma única palavra sobre o assunto. Tucker tem a resposta para isto: “Tirem-nos todos de lá! Os portugueses é que devem tomar conta do seu país.”

 

Para saber mais

O jornalista Frederico Duarte Carvalho também se deslocou a Sitges para fazer a cobertura jornalística possível da reunião de 2010, igualmente publicada no semanário O Diabo (na edição de 15 de Junho):
Ao encontro de Bilderberg

 

O Russia Today foi o único canal televisivo a fazer uma cobertura isenta sobre este evento:

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